Como é possível sobreviver no day-trading, com e sem robôs

Provavelmente você já conhece ou ouviu falar dessa pesquisa recente sobre day-trading [1], encomendada pela CVM para FGV, onde algumas das principais conclusões são que:

“A probabilidade de alguém começar a fazer day-trade e conseguir, após o período de aprendizado, uma renda média diária acima de R$ 300,00, é igual a 15 dividido por 19.696 (0,08%). Considerando-se apenas as pessoas que operaram por mais de 300 pregões, essa probabilidade é 15 dividido por 1.558 (0,96%). É importante enfatizar que estamos ignorando possíveis custos de corretagem, cursos e tecnologia.”

Acessando o site da SSRN (Social Science Research Network), me chamou a atenção que a versão mais recente e atualizada do artigo, publicada nesse repositório [2], aparece entre os 10 maiores downloads.

Isso demonstra não apenas a excelente qualidade da pesquisa, e da equipe de professores responsáveis, como a relevância de suas conclusões.

Um ponto que considero muito significativo nesse artigo, e que me parece um excelente assunto para debate, que iniciei no fórum do MetaTrader [3] — que é um ambiente de trading sistêmico — é o resultado e crescimento dos sistemas de operação em alta frequência (HFT), que me fez questionar até que ponto as mudanças recentes e a entrada da oferta Retail Liquidity Provider (RLP) são reflexos diretos desse crescimento do HFT e resultados desanimadores dos day traders.

Como é possível sobreviver no day-trading, com e sem robôs

Nesse post gostaria de avançar um pouco nessa questão, inclusive analisando as conclusões sobre os resultados da pesquisa [1][2].

Minha visão é que o grande erro da análise da pesquisa está no fato de que o aprendizado para sobreviver no day-trading é de longo prazo, o que significa, vários anos.

Na verdade, esse é um conceito antigo no mercado para qualquer frequência de operação, de que apenas a experiência de longo prazo, de erros e acertos, leva ao bom trader e investidor.

Uma metáfora que gostaria de apresentar para essa realidade, para melhor entendimento, é a do investimento no ensino universitário e formação profissional, a partir de vários anos de estudos.

Se fosse feita uma pesquisa de quantos engenheiros civis conseguem construir um prédio com custo e segurança viáveis após o primeiro ano de faculdade, provavelmente os resultados seriam até piores do da pesquisa de quantos traders sobreviveram ao primeiro ano.

Ou ainda, quantos médicos conseguem fazer uma cirurgia de forma eficaz após o primeiro ano da faculdade de medicina?

Na minha visão, a formação de um bom médico especialista, como por exemplo em medicina interna, pode levar o mesmo tempo de formação de um bom trader ou investidor, ou seja, mais de dez anos.

E se a pesquisa alerta que não está levando em conta os custos operacionais nem referentes ao de cursos de aprendizado, da mesma forma não estou contando aqui todo o período de preparação para o vestibular, cada vez mais competitivo.

Em outras palavras, para sobreviver no day-trading, com ou sem robôs, minha resposta é simples: você deve seguir exatamente o roteiro de um aluno universitário, pensando em aprendizado em longo prazo.

Na verdade, vou mais adiante, e considero que deveriam existir no mercado universidades de formação de traders e investidores, com o mesmo nível de profundidade de conteúdo que formamos engenheiros e médicos, se realmente desejamos gerar o resultado confrontado pela pesquisa da FGV, principalmente se considerarmos o avanço das finanças quantitativas e dos mais diversos robôs nessa indústria.

Mas é necessário começar, e esse é no meu entender a grande falha de conclusão da pesquisa apresentada, que impacta o mercado de forma negativa, pois passa uma imagem de que apenas um ano deveria ser suficiente para formar um trader competente no mercado intradiário.

O mundo real do intradiário

Seja como for, sobreviver no day-trading, como mostram os dados da pesquisa, está cada vez mais complexo, e ninguém pode esquecer de duas realidades que me parecem muito claras:

  • sobreviver no day-trading sem o uso de robôs, ou seja, apenas com operações discricionárias, está cada vez mais complexo;
  • mesmo para os robôs o problema de operação no day-trading também está cada vez mais complexo;

Além disso, não devemos esquecer que, pelo menos por enquanto, a grande maior parte dos robôs é gerada de forma manual, ou seja, o fator humano ainda está fortemente presente na curva de aprendizado.

Portanto, minha visão é que, sim, é possível sobreviver no day-trading, desde que você invista no aprendizado, em longo prazo, ou como na metáfora que apresento, planeje sua profissão com a visão de um universitário.

Sds.,

Rogério Figurelli em 25/10/2019

Referências:

[1] Só minoria ganha mais de R$ 300 por dia com ‘day trade’, diz pesquisa
https://valor.globo.com/financas/noticia/2019/03/08/so-minoria-ganha-mais-de-r-300-por-dia-com-day-trade-diz-pesquisa.ghtml

[2] Day Trading for a Living?
Fernando Chague, Rodrigo De-Losso and Bruno Giovannetti
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3423101

[3] É possível viver de day-trading?
https://www.mql5.com/pt/forum/324815